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São João da Madeira é uma cidade da Área Metropolitana do Porto e a sede do mais pequeno município português. Nos últimos anos, vários estudos sobre qualidade de vida indicaram São João da Madeira como um dos melhores municípios para viver em Portugal, tendo em conta aspectos como o ensino, a formação, acessibilidades e transportes.

Durante muito tempo, esta localidade passou despercebida, mas, no século XIX (de 1801 a 1900), houve uma mudança geral na sua história, tornando-se um dos maiores pólos de desenvolvimento industrial do país, principalmente de chapéus e sapatos. Não é ao acaso que o lema desta cidade é ‘Cidade de Trabalho’!

A primeira indústria a destacar-se foi a dos chapéus. Nesse século, nenhuma mulher ou homem saía de casa sem um chapéu. Era sinal de estilo, de elegância, fazia parte do charme desta época, mas também o facto de se cobrir a cabeça estava relacionado com a diferenciação de classes sociais e até com a religião. Porém, este século trouxe também transformação ao nível da indústria têxtil, com novos tecidos e formas de produzir, o que massificou o uso e a moda destes adereços.

A primeira fábrica fixou-se em 1802 em São João da Madeira e, ao longo dos anos, foram surgindo cada vez mais unidades fabris nesta localidade. Nesta cidade existe o Museu da Chapelaria, único na Península Ibérica, e que foi criado, em 2005, numa antiga fábrica de chapéus. Este espaço é uma homenagem aos que trabalharam nesta indústria, muito importante na história do concelho. Neste museu poderá conhecer um pouco deste mundo, bem como as histórias de vida dos trabalhadores desta indústria.

A partir da década de 30, e após o final da Segunda Guerra Mundial, o uso do chapéu começa a ressentir-se, impulsionado pelas revoluções sociais e estudantis e novos estilos de vida. Estas fábricas tiveram então de inovar e procurar novos segmentos de mercado para apostar, como em chapéus de tecido ou no calçado.

Apesar das mudanças, é em São João da Madeira que continua a existir o maior centro de produção de feltros para chapéus. A FEPSA – Feltros Portugueses é um caso de sucesso e a única resistente dos antigos tempos de ouro deste sector. Sediada em São João da Madeira, foi criada em 1969, em resultado da união de seis fabricantes nacionais de feltros e chapéus, com vista à produção de feltros de grande qualidade. O produto sai desta empresa já praticamente transformado em chapéu, faltando apenas os acabamentos, que são feitos depois nas empresas para onde são exportados. 

Os feltros desta empresa são tão famosos que até já andam por Hollywood. Por exemplo, Harrison Ford, enquanto Indiana Jones, usou chapéus com feltro da FEPSA, mas também Johnny Depp, Nicolas Cage, ou Robert de Niro partilham o mesmo gosto. Com empenho e visão de mercado, a FEPSA exporta, assim, para vários países do mundo inteiro, é líder mundial no sector, exporta 98% da sua produção anual e para casas tão famosas como Hermès, Georgio Armani ou Chanel. É ainda responsável por 1/3 da produção mundial de feltros para chapéus. 

Para além da indústria chapeleira, São João da Madeira cresceu noutro sector, o dos sapatos, sendo mesmo apelidada como ‘capital do calçado’. Aliás, este foi um sector que cresceu muito quando os chapéus entraram em desuso, fruto dos novos hábitos das sociedades, mais liberais e descontraídas. Os empresários tiveram de inovar e apostar noutras áreas. 

São João da Madeira – Capital Portuguesa do Calçado

Há empresas de São João da Madeira com representações dentro e fora da Europa, em países tão distantes como o Japão. É o caso da empresa Luís Onofre e Carlos Santos, marca 100% nacional e que produz sapatos de luxo de forma manual, funcionando as máquinas apenas como um complemento. Esta empresa está presente em França, Holanda, Alemanha, Japão, Suíça, EUA, entre outros. No início uma marca apenas para o sexo masculino, a Carlos Santos está a apostar no mercado feminino, com novos e atractivos produtos.

Esta empresa já tem 70 anos e é um caso de sucesso a nível nacional e internacional. Praticamente tudo o que é produzido nesta fábrica de calçado em São João da Madeira é para exportação, o que demonstra a confiança e a preferência dos clientes, bem como a qualidade a dedicação de quem lidera este projecto.

Por causa desta ligação estreita com a indústria, em São João da Madeira nasceu um conceito diferente de turismo, o turismo industrial, onde pode visitar as indústrias mais antigas da região. Já existem até circuitos de visita pré-definidos.

Nesta cidade existe também o Centro Tecnológico do Calçado de Portugal, uma organização sem fins lucrativos que tem como objectivos apoiar as empresas do calçado e sectores relacionados, promover uma melhor qualidade dos produtos e da formação dos recursos humanos das empresas, bem como realizar trabalhos de investigação. Estes objectivos são cumpridos através de várias actividades, como formação profissional, ensaios em matérias-primas ou em produtos acabados, organização industrial e investigação.